quarta-feira, 5 de março de 2014

A aranha na lua


Perdido na lua
Os meus olhos deitam-se pelo mármore frio e gélido
as minhas lágrimas secam e voam para além, pra contar aos espíritos

A minha barba colecciona pó e sangue do chão
Não ouço nada
Não vejo nada

Só me lembro
Aliás, tento

Estou enterrado na história que me empurrou para aqui
Sinto uma aranha a enrolar as pernas e a retorcer os olhos
A estrangular e a desmembrar um cubo de Rubik
Desesperada em perceber,
Em espremer luz daquela caústica desordem
Daquela linha desconjurada, que para a aranha parece tão misteriosa

Mas eu já cresci para além dela
E vejo que aquela linha é recta como as outras
Como tudo é recto
E como o desespero da aranha extende-se de seus olhos,
De sua cabeça. A pobre aranha está presa em sua própria teia
E nela está presa a vida. Os estilhaços dela.

Sed Aranea
Ipsum est vitam

Os nossos vários e vastos olhos mordem-nos a mão e pedem mais
mais perguntas
mais respostas

Ipsum est vitam é uma mera mentira que digo
Pois estou esmagado pela lua, com uma aranha na boca

E as palavras que me digo, são só palavras.

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